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Um Olhar Amoroso sobre a Índia - Jean-Claude Carrière
Nome de destaque no cinema contemporâneo europeu, Jean-Claude Carrière ficou conhecido por sua parceria com Luis Bunuel para quem roteirizou os clássicos A Bela da Tarde, Esse Obscuro Objeto do Desejo e O Discreto Charme da Burguesia. Em mais de 40 anos de carreira, foi responsável por inúmeros sucessos cinematográficos. Brincando nos Campos do Senhor, de Hector Babenco, e A Insustentável Leveza do Ser, de Philip Kaufman também levaram sua assinatura como roteirista.
Espírito aventureiro e apaixonado pelo hinduísmo, Carrière visitou a Índia mais de 30 vêzes. Segundo ele, conhecer a Índia é “fazer uma viagem física no tempo, um transporte imediato para as luzes e aromas de outra época, nos meandros de algum palácio de idade indefinida. Nenhum esforço é exigido aqui: basta se deixar levar, deslizar pela passagem temporal que está entreaberta para qualquer um, em todos os lugares.” Mas Carrière alerta também: “O passado não é o passado. Aqui, ele é apenas uma das formas do presente, o que não significa que a Índia seja um país retardatário com suas exportações de software para o resto do mundo.”
 
Esses paradoxos se verificam a cada passo, a cada vilarejo visitado, a cada contato com um templo esculpido nas pedras. Passado, presente, futuro entremeados, separados por um fio tênue.
Para Carrière, isso é o que nos atrai na Índia “Instintivamente procuramos um sentido em cada paisagem, que varia de acordo com o olhar”.
Tanto na movimentada e ocidentalizada Mumbai, com seus arranha-céus, shoppings, ares de cidade grande, quanto nas ruínas de Hampi, perdidas entre as montanhas, o olhar do viajante se detém fascinado, pesacando a cada momento um novo significado.
Em Agra, Carrière se rende “à tumba mais célebre do mundo” : o Taj Mahal, onde um imperador mongol sepultou os restos de sua esposa favorita. A multiplicidade de deuses não poderia ficar de fora dos relatos.
Segundo o autor “Krishna nos segue por todos os lugares, de norte a sul, tanto nos palácios quanto nos templos. É a divindade mais venerada e representada em toda Índia”.
Político, guerreiro, preservador da vida, Krishna é um dos heróis do Mahabharata, maior poema épico do hinduísmo, que contém toda a filosofia da Índia. O Mahabharata aliás, segundo Jean-Claude Carrière foi “nossa credencial na Índia, nos conduzindo a todas as escolas de teatro, dança, de povoado a povoado, de indivíduo a indivíduo” .
Em 1989, em parceria com o diretor teatral Peter Brook, Carriére fez chegar às telas uma adaptação cinematográfica bastante feliz deste poema, com quase 5 horas e meia de duração. Em 1994, segundo ele, um contato com o Dalai Lama lhe desvendou o Budismo, aprimorando sua forma de sentir e absorver a cultura indiana.
Ele aconselha ao futuro turista: Cada visitante, aqui como em outro lugar, detendo-se diante das obras-primas consagradas, pode escolher seu percurso, ir aqui ou acolá, retornar, flanar, e até mesmo dormir sobre uma pedra. Alguns preferem um caminho solitário, outros optam por compartilhar suas surpresas e emoções. Aqui nada é obrigatório. Aqui ninguém se comporta como se estivesse em um rebanho, Cada um encontra seu ritmo e pousa seu olhar onde quer.”
Jean-Claude Carrière. Um Olhar Amoroso sobre a Índia. 448 páginas. Editora Ediouro Tradução Cláudia Fares
Pedro Jayme Ortega Schmitt