Consciência e Alquimia - Parte I I

Há uma exigência de cooperação deliberada do indivíduo na tarefa de criar consciência.
Embora os textos alquímicos sejam complexos, confusos e até mesmo caóticos, o esquema básico da
"Opus" é deveras simples: criar uma substância transcendente e miraculosa, simbolizada de várias maneiras, seja como Pedra Filosofal, como Elixir da Vida ou Panacéia Universal.
O que importa é descobrir o material adequado, a chamada Prima-matéria, e em seguida, submetê-la à uma série de transformações que redundarão na Pedra Filosofal.
O termo Prima-matéria remonta aos filósofos pré-socráticos.
Esses antigos pensadores prendiam-se à uma idéia à priori, uma imagem arquetípica que lhes dizia que o mundo seria gerado de uma única e original matéria, a chamada Prima-matéria.
Embora divergissem quanto à identificação desta matéria, concordavam com sua existência. Assim, Tales afirmava que a Água era a Prima-matéria ao passo que Heráclito considerava o Fogo, e Anaxímenes o Ar. Anaximandro a batizava como Apeíron, que significa "Ilimitado".
Muitos imaginavam que a primeira matéria passava por um processo de diferenciação pelo qual dava origem aos 4 Elementos: Terra, Ar, Fogo e Água.
Em seguida, tais elementos se combinariam em diferentes proporções para formarem todos os objetos físicos do mundo. Impôs-se então uma estrutura quádrupla à Prima-matéria: uma cruz representando os 4 Elementos, ou seja, dois grupos de contrários se cruzando.

Psicologicamente, esta imagem corresponde à criação do ego a partir do inconsciente indiferenciado mediante o processo de discriminação das 4 funções psíquicas:

Ar - Pensamento
Água - Sentimento
Terra - Sensação
Fogo - Intuição

Descoberta a Prima-matéria, deve-se submetê-la à uma série de procedimentos químicos a fim de transformá-la na Pedra Filosofal. Praticamente todo o conjunto de imagens alquímicas pode ser organizado em torno dessas operações.
Como Jung definiu muito bem:
"Não devemos censurar a linguagem secreta dos alquimistas; a percepção aprofundada dos problemas do desenvolvimento psíquico logo nos ensinarão ser preferível reservar o julgamento em vez de anunciar prematuramente "o quê é o quê".
Com efeito, todos temos um compreensível desejo de clareza cristalina, mas corremos o risco de esquecer o fato de lidarmos, em assuntos psíquicos com processos de experiência, isto é, com transformações que jamais devem receber denominações rígidas e apressadas, se não se desejar petrificá-las em alguma coisa estática.
O mito e o símbolo exprimem os processos da psique de maneira muito mais vigorosa e mais claramente do que o mais explícito conceito porque o símbolo não apenas transmite uma visualização do processo, como também traz uma renovada experiência dele."

Adriana Gaia